"Toda história tem três lados: o meu, o seu e os fatos." ( Foster Russel)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Chávez: Somos livres, já não somos colônias de nenhum império

O presidente da República Bolivariana da Venezuela, Hugo Chávez Frías, recebeu nesta segunda-feira (9) no Palácio Miraflores seu colega iraniano, Mahmud Ahmadinejad.

Depois das honras militares de praxe, o chefe de Estado venezuelano deu as boas vindas ao “irmão Ahmadinejad, a ti e a tua delegação e, por intermédiio de vocês, ao povo irmão e heroico do Irã”.

Chavez refutou as acusações feitas a partir dos Estados Unidos sobre as relações entre o Irã e a Venezuela.

“Acusam-nos de belicistas, mas não somos belicistas, o Irã não invadiu nenhum país, a Revolução Islâmica do Irã não invadiu ninguém, nem a Revolução Bolivariana, não lançamos uma bomba contra quem quer que seja, lembrou o presidente.

“Quem invadiu países e povos durante 100 anos e mais? Quem lançou mísseis e milhares de bombas sobre povos indefesos, incluindo bombas atômicas? Quem provocou massacre e genocídio?”

“Nós somos parte dos povos que foram agredidos e continuamos sendo agredidos e nos pretendem apresentar como agressores, mas estamos nas lutas pelo equilíbrio do mundo, pela paz e a salvação do mundo”, disse.

E ironizou: "Os porta-vozes do imperialismo norte-americano dizem que Ahmadinejad está na Venezuela porque neste mesmo instante vamos, ele e eu, quase a partir dos porões de Miraflores, afinar a pontaria rumo a Washington, porque vão sair uns mísseis, porque vamos atacar Washington. É quase isto o que estão dizendo. É para rir mas também para ficarmos alertas”.

Chávez disse que sua reunião com o líder iraniano é para seguir fazendo a guerra “contra a fome, a miséria e o subdesenvolvimento”.

O chefe de Estado venezuelano ressaltou o trabalho conjunto dos povos venezuelano e iraniano e a luta de ambas as nações pela autodeterminação dos povos, o respeito ao direito internacional e o respeito às nações do mundo que já “não querem mais o imperialismo”.

Chávez destacou que a Venezuela seguirá construindo relações fraternas de cooperação com o governo do Irã para construir um mundo novo, "onde não haja miséria, exclusão, pobreza e onde se acabe a fome e o sofrimento das maiorias".

"Nesse camino temos marchado e estamos avançando em conquistas concretas em função dos interesses de nossos povos", expressou o líder revolucionário bolivariano.

Entre os avanços da relação bilateral, mencionou que cerca de 14 mil casas foram construídas no país com o apoio do governo iraniano, enquanto outras 7 mil casas serão construídas na Cidade Caríbia, situada entre o estado de Vargas e o Distrito Capital.

O mandatário venezuelano mencionou ainda que com a ajuda do Irã foram instaladas no país 26 usinas agroalimentares.

Ademais, disse que com o Irã o país está obtendo avanços na instalação de fábricas de tratores e de veículos e processadoras de leite.

"Esta é a nossa luta. Por isso e por mil razões, e pelas profundas relações humanas entre nossos povos, é que estamos hoje felizes ao dar as boas vindas ao presidente Ahmadinejad, não só à Venezuela, mas também as boas vindas a nossa América, esta América índia que se pôs de pé uma vez mais. Nossa América começou a caminhar com seus próprios pés, somos livres, já não somos colônias de nenhum imperio”.

Por sua vez, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, disse que apesar dos "arrogantes" que fazem oposição, ele estará "para sempre" junto de seu colega venezuelano, Hugo Chávez. "Apesar dos arrogantes que não querem nos ver juntos, estaremos juntos para sempre", disse Ahmadinejad após ser recebido por Chávez.

Ahmadinejad, que visita a região enquanto os países imperialistas aumentam a pressão contra Teerã por seu programa nuclear, classificou Chávez como "irmão" e "o símbolo da revolução na América Latina". "Hoje o povo venezuelano e o povo iraniano, os dois juntos, estão em um caminho de luta contra toda a avareza dos arrogantes do imperialismo. O sistema hegemônico e dominante está em sua decadência", acrescentou.

Ahmadinejad disse que a América Latina está desperta para "reivindicar seus direitos" e considerou que a região "leva a ferida e a cicatriz de tudo o que sofreu ao longo da história, de muitos séculos". O líder iraniano vislumbrou um futuro "livre de arrogância, livre de opressão, livre de tudo o que estão fazendo os arrogantes". Após reunir-se com Chávez, está previsto que o presidente iraniano visite a Nicarágua para participar da posse de Daniel Ortega e posteriormente se dirija a Cuba e Equador.

Por: Agência Venezuelana de Notícias
via Portal Vermelho
Foto: Reprodução

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Criança indígena de 8 anos é queimada viva por madeireiros



Quando a bestialidade emerge, fica difícil encontrar palavras para descrever qualquer pensamento ou sentimento que tenta compreender um acontecimento como esse. Na última semana uma criança de oito anos foi queimada viva por madeireiros em Arame, cidade da região central do Maranhão.

Por Rogério Tomaz Jr. no blog Conexão Brasília Maranhão

Enquanto a criança – da etnia awa-guajá – agonizava, os carrascos se divertiam com a cena.

O caso não vai ganhar capa da Veja ou da Folha de S. Paulo. Não vai aparecer no Jornal Nacional e não vai merecer um “isso é uma vergonha” do Boris Casoy.

Também não vai virar TT no Twitter ou viral no Facebook.

Não vai ser um tema de rodas de boteco, como o cãozinho que foi morto por uma enfermeira.

E, obviamente, não vai gerar qualquer passeata da turma do Cansei ou do Cansei 2 (a turma criada no suco de caranguejo que diz combater a corrupção usando máscara do Guy Fawkes e fazendo carinha de indignada na Avenida Paulista ou na Esplanada dos Ministérios).

Entretanto, se amanhã ou depois um índio der um tapa na cara de um fazendeiro ou madeireiro, em Arame ou em qualquer lugar do Brasil, não faltarão editoriais – em jornais, revistas, rádios, TVs e portais – para falar da “selvageria” e das tribos “não civilizadas” e da ameaça que elas representam para as pessoas de bem e para a democracia.

Mas isso não vai ocorrer.

E as “pessoas de bem” e bem informadas vão continuar achando que existe “muita terra para pouco índio” e, principalmente, que o progresso no campo é o agronegócio. Que modernos são a CNA e a Kátia Abreu.

A área dos awa-guajá em Arame já está demarcada, mas os latifundiários da região não se importam com a lei. A lei, aliás, são eles que fazem. E ai de quem achar ruim.

Os ruralistas brasileiros – aqueles que dizem que o atual Código Florestal representa uma ameaça à “classe produtora” brasileira – matam dois (sem terra ou quilombola ou sindicalista ou indígena ou pequeno pescador) por semana. E o MST (ou os índios ou os quilombolas) é violento. Ou os sindicatos são radicais.

Pressão constante

Os madeireiros que cobiçam o território dos awa-guajá em Arame não cessam um dia de ameaçar, intimidade e agredir os índios.

E a situação é a mesma em todos os rincões do Brasil onde há um povo indígena lutando pela demarcação da sua área. Ou onde existe uma comunidade quilombola reivindicando a posse do seu território ou mesmo resistindo ao assédio de latifundiários que não aceitam as decisões do poder público. E o cenário se repete em acampamentos e assentamentos de trabalhadores rurais.

Até quando?

Esclarecimento do jornal Vias de Fato

O Conselho Indigenista Missionário (CIMI) confirmou na quinta-feira (6), a informação que uma criança da etnia Awá-Gwajá, de aproximadamente 8 anos, foi assassinada e queimada por madeireiros na terra indígena Araribóia, no município de Arame, distante 476 km de São Luis. A denúncia feita pelo Vias de Fato, foi postada logo após receber um telefonema de um índio Guajajara denunciando o caso.

De acordo com Gilderlan Rodrigues da Silva, um dos representantes do CIMI no Maranhão, um índio Guajajara filmou o corpo da criança carbonizado. ”Os Awá-Gwajás são muito isolados, e madeireiros invasores montaram acampamento na Aldeia Tatizal, onde estavam instalados os Awá. Estamos atrás desse vídeo, ainda não fizemos a denúncia porque precisamos das provas em mãos” disse Gilderlan.

Violência contra indígenas é fato recorrente no Maranhão, no dia 26 de setembro de 2011, conforme denunciamos aqui nesse site, uma senhora indígena do Povo Canela, Ramkokamekrá Conceição Krion Canela, de 51 anos foi encontrada morta a pauladas. A atrocidade aconteceu no Povoado Escondido, interior de Barra do Corda. No mês de outubro, uma índia de 22 anos, deficiente mental, da terra indígena Krikati foi violentada sexualmente por um homem identificado como Francildo. Segundo Belair de Sousa, coordenador técnico da terra indígena, o indivíduo chegou na aldeia Campo Grande armado. O CIMI Nacional informou que vai emitir nota pedindo apuração do caso do assassinato da criança Awá.


Publicado no Portal Vermelho, com informações do jornal Vias de Fato

Morre Beatriz Bandeira, companheira de Olga Benário na cela 4

Morreu, aos 102 anos, Beatriz Bandeira, a última sobrevivente da famosa cela 4 – onde foram presas, na Casa de Detenção, no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, as poucas mulheres que participaram do Levante Comunista de 1935 no Brasil.

Publicação original: Portal Vermelho

Foi na cela 4 que ficaram confinadas Olga Benário (esposa do líder do Levante, Luiz Carlos Prestes), a futura psicanalista Nise da Silveira, a advogada Maria Werneck de Castro e as jornalistas Eneida de Moraes e Eugênia Álvaro Moreyra.

Por conta dessa passagem, Beatriz virou personagem de livros como Memórias do Cárcere, o relato biográfico de Graciliano Ramos, que também esteve preso por causa da revolta.

Pouco antes, como militante comunista e da Aliança Nacional Libertadora (ANL), Beatriz conheceu seu marido, Raul, que viria a ser jornalista e secretário de Imprensa do governo João Goulart (1961-1964). Com ele se casou três vezes.

Os dois foram exilados duas vezes. Em 1936, depois da libertação, foram expulsos para o Uruguai. Em 1964, após o golpe militar, receberam abrigo na Iugoslávia e, posteriormente, na França.

De volta ao Brasil


Ao regressar ao Brasil, Beatriz continuou a militância política nos anos 1970 e 1980. Foi uma das fundadoras do Movimento Feminino pela Anistia e Liberdades Democráticas, que lutou pelo fim da ditadura no país.

Beatriz nasceu em uma família positivista. Seu pai, o coronel do Exército Alípio Bandeira, foi abolicionista. Como militar, trabalhou no Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e ajudou o Marechal Cândido Rondon na instalação de linhas telegráficas no interior do país e no contato com tribos isoladas – Alípio liderou o encontro com os Waimiri Atroari em 1911, por exemplo.

Além de militante política, Beatriz foi poeta (publicou Roteiro e Profissão de Fé) e professora (foi demitida pelo regime militar da cadeira de Técnica Vocal do Conservatório Nacional de Teatro). Também escreveu crônicas e colaborou para o jornal A Manhã e as revistas Leitura e Momento Feminino. Há dez anos ela contou um pouco de sua história em uma entrevista à TV Câmara.

Beatriz morreu na noite de segunda (dia 2) após um AVC. Foi enterrada no final da tarde de terça-feira (3) no Cemitério São João Batista, em Botafogo.

Uma nota pessoal

Beatriz Bandeira Ryff era minha avó. Nos últimos anos de sua vida centenária a senilidade tinha lhe tirado totalmente a visão. Ela quase não falava e mal se comunicava com o mundo.

Há uns dez dias, fui visitá-la levado pelo meu filho de 8 anos que queria dar um beijo na “bisa”. Encontramos ela mais presente do que em todas as visitas nos anos anteriores. Chegou a cantarolar algumas músicas que costumava embalar o sono dos netos quando pequenos, como os hinos revolucionários Internacional, A Marselhesa (embora ela também cantasse obras não políticas, entre elas a Berceuse, de Brahms).

Ao me despedir, perguntei-lhe se lembrava o trecho do poema Canção do Tamoio, de Gonçalves Dias, que ela costumava recitar. Ela assentiu levemente com a cabeça e começou, puxando do fundo da memória. Foram suas últimas palavras para mim.

“Não chores, meu filho/Não chores, que a vida/É luta renhida:Viver é lutar./A vida é combate/Que os fracos abate/Que os fortes, os bravos/Só pode exaltar.”(Canção do Tamoio, Gonçalves Dias)


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